AS PARCERIAS, as evoluções da empresa e minúcias do comportamento dos acionários e membros da direção foram sempre descritos com a fidelidade própria a um assessor humilde e bem pago, pouco lírico. À maneira dos Grandes Naturalistas, como Darwin, Linnaeus, Fabricius, James Hutton e William Buckland (fora da ordem cronológica), a nossa visão da literatura foi sempre a que melhor ruíu o reino fantástico daquele desinteressante romance de idéias, mitos e fábulas da Criação e “de criação”. Sempre quisemos uma classificação que tangisse espécimes observáveis ali do lado, e tivesse interesse material — econômico? — produzindo tábuas coloridas de realismo... ou que só dessem uma volta na nossa memória; mas uma volta de verdade.
Cronópios, parágrafos kafkiescos, nova geração da literatura... livros de personagens que não tem nenhum status social real, se movendo por qualificações vagas; que não tem nenhuma origem ou motivo conhecido ou mesmo vivenciado pelo ser humano. Tudo que se passa lá fora só atravessa o texto devagar, como atravessaria uma gelatina. Ou um flan.
Carl Lomvié ilustrou melhor talvez em Un litre de littérature: “Meu personagem principal será um tapeceiro persa — porque eu não tenho idéia de como um desses se veste ou fala, ou vive. Ele dirá coisas que só parecem coesas no susto, e serão lisas, fantásticas! Estruturadas por fios precários de ligação obscura, auto-psicológica, compondo uma cena de inabilidade total. Serão só duas frases no diálogo desse capítulo único e primeiro, e todas as duas são perguntas sem resposta — serão perguntas — soarão um murmurinho existencial incompleto, interrompido... como a criação mesma do personagem. E no final, de algum modo, ele morre, ou foge para longe, ou toma uma decisão sem motivação perceptível que tenderá a ação incompleta, incompreensível ao leitor, e a mim. E acabarei o texto descrevendo em primeira pessoa a maneira pela qual eu e o narrador percebemos o suporte frágil da nossa própria existência, ou mesmo; do nosso papel!”.
Papelaço. Esperamos que ninguém caia presa desse kabuki psico-dramático, origami virtual de contratos sociais imaginários na hora de descrever as curvas de ascensão do preço das ações. Por favor.
Um beijo puro, 1 galão, alta-octanagem: pra nós! Amostra grátis em sachê pra vocês.
Comm. Interna Especial Comissão Relatório Anual Ano Fiscal 2007
2 pós-ocupações:
hahah vouocupar
porque sabe que me ocupou meo, na alma? lindo essa coisa d^escrita,
sim, os acionários gostam de ver coisas escritas; às vezes desenhadas em gráficos de linhas ascendentes, e fatias coloridas demonstrando monopólio do mercado. mas definitivamente algo atravessando um flan não é a metáfora de progresso que gostariam de ver no powerpoint; um peixe subindo a correnteza seria uma imagem mais alvissareira.
pensando nisso, a sugestão do departamento é que só se façam relatórios em chinês a partir de agora. a complexidade dos kanjis nos forçaria a ser sucintos, lacônicos, essenciais,
como passaremos a ser a partir de agora, aliás.
beijos-haiku for all
dodecassílabos for us.
and all be us.
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