Pequim, janeiro, 2005.
Yves Saint-Michê = &
Rem Koolhaas = %
Mudanças à revelia = Assessoria de Imprensa
%: Fui recentemente associado ao seu nome. Pois, descobri que YSM tem algum respeito por mim e espero que tanto mais do que eu por ele. O que sempre me deixa admirado - mais do que a beleza dos gestos que resultam da sua vestimenta - é seu gosto refinado para a arquitetura. Esse gosto que prefere o papel e o conceito gráfico ao construto pouco administrável no longo prazo. O que te atrai nessa história toda de arquitetura?
&: A televisão, a tela LCD, e as cores. Aquilo que é a arquitetura sem construção e aquilo que é arquitetura depois da construção. Longe da arte conceitual, que é mal cortada, de começo - é só ver como os artistas conceituais se vestem - é ver a arquitetura pela televisão: ela vai mais longe assim, isso que fica na cabeça de ver a planta, o esquema estrutural, a montagem, a maquete filmada. Tudo isso é cômico também. Fica a arquitetura pré-vista e pós-vista. Isso acontece com tudo que passa pela tela, agora. Pré, pós e vadiagem pra com a história de experiência atual, agora, aqui, percebendo a construção, 1,2,3(aqui, um tributo).
%: hum… mas e especificadamente?
&: O fato que eu habito mais essas pré-visões - e ao mesmo tempo pós-visões - que o hotel que eu escolho habitar. Antes de construído, o construto é habitável na minha cabeça, e, depois de construído, ele vai passar ao largo do que eu já fiz com ele na minha cabeça… e que continuo fazendo com ele, mesmo se estou dentro dele, na minha cabeça. Ele já está revirado e eu vou insandecer o que ele tinha pra mim, assim guardado pra funcionar depois de construído. De um jeito que só iria funcionar se eu ficasse tentando me travar por ele o tempo todo.
%: O que você acha das minhas roupas?
&: você que deve me dizer: você as habita gostoso?
%: (risos), só antes de vestí-las e depois de tirá-las.
&: sua fingida safada! (gargalhadas). É como a loja que você projetou – e eu adorei o fato de que é como ‘by myself’ que ela se apresenta pra nós. Desde o começo eu já a fazia parte de mim, era minha, como minha, feita por mim mesmo. E agora ela passa ao meu largo e eu ao dela… Você pode ver, há outra loja de outro autônomo funcionando no lugar, eu nem me dei ao trabalho de entrar nela e usá-la: ela já era de outrem e eu já havia a habitado o suficiente antes de entrar lá. Você me deu mais entusiasmo, a loja me deu mais entusiasmo, então eu usei esse entusiasmo! Ao diabo com a loja!
%: o banheiro é um luxo, convenhamos.
&: demais. Eu aliás queria que você fizesse um banheiro surpresa um dia. Pra Maison Michê.
%: onde está o prédio deles agora?
&: não sei.
%: mas isso aqui é sobre você, hoje. Deixemos os projetos para depois da entrevista.
&: você viu minha camisa?
%: linda!
&: não é?
%: o máximo! Agora, não entendo porque não brinca com o mundo teórico, publicando!
&: ‘YSM e o mundo da magia teórica’ é coisa de metrosexual. Cadê? não existe porque já existia antes e depois de nomeado e estabelecido vira outra coisa na nossa mão...até havia metrosexuais e magia teórica... agora, não há mais porque a gente só quer fazer outra coisa com o que dão na nossa mão depois que a gente viu a coisa toda pra acontecer...
%: qual a ênfase no ‘habitar’, na sua visão de urbanismo?
&: é atravessar fora da faixa. Coisa que se diz ‘um móbil’. A gente contorna a cidade pelos ‘móbeis’ e assim ela vira um móbile e não mais uma malha polarizada e estruturada racionalmente. É assim: pensa você no lixo, na limpeza das ruas, no esgoto e na distribuição de água etc. São móbeis. Faça um móbile e beijos muitos: você tem a sua “cidade”.
%: não tente me dar lições.
&: olha esse kati do norte.
[mostra]
%: O segundo movimento, faz denovo? Eu entendi só o bloqueio.
[mostra]
%: a perna está certa?
[mostra]
%: bom!
&: você machucou o cotovelo essa semana? Está marcado.
%: sim, num espelho retrovisor em NY.
&: fizeram móbil com você. Cidade-cotovelo.
[gargalhadas]
%: [ainda rindo] Mas é como o Lacan dizia do Derrida: “você não tem que cuidar dos psicóticos na clínica”. Você não tem que construir um prédio, Yves.
&: Eu digo "Isso é sobre mim, mas pode ir mais pra lá": construir é muito mais sobre maestria de utilização das partes envolvidas pra uma feitura de um ‘eu mesmo pra vocês envolvidos’. Esse ‘eu’, o arquiteto. Já se as partes envolvidas são eu, à mim mesmo, e eu mesmo depois, temos insandecimento: o prédio é assessório nessa história. A gente construiria por farra. A gente farreia com as construções na cabeça, constrói e farreia neles de um jeito que a gente não tinha pensado antes, nem tinha como.
%: deviam acabar com muitas das zonas tombadas nas cidades…
&: ou tirar os tombadores de suas casas e colocar eles nos prédios que eles seguram tenazmente. Se bem que isso já é a Europa...
%: e, então, as zonas resguardadas? Perguntarei e vou me abster de falar o que eu acho.
&: é só fazer programas de tv sobre elas. E então a gente destrói tudo - e filma também – e se diverte durante a nova farra. Depois a gente faz isso denovo. Vai ficar, mesmo se a gente não quiser, uma história, uma falsa-moral e um entre-pontos, etc. Já basta, pra quem estiver vivo. E, plus, é divertido, e não fere nenhuma conduta orgulhosa de quem a gente não convencer: tem um programa, um show, sobre eles! Ninguém resiste a isso! Haverá uma contraposição, deles, só pra gente fazer um vídeo deles. Depois se eles não sossegarem, a gente faz outro!
%: delicado…
&: ninguém, nesses termos, faz nada que estrague a brincadeira de ninguém… é só ligar 1 com 2. Todo mundo só fala em 1 e todo mundo só fala em 2. É so ligar. Eles se viram porque a gente vai estar se virando com eles.
%: (risadas) nunca vi você falar assim na frente do pessoal da Maison!
&: (risadas) Eu não sei do que se trata ao certo, por isso eu acho que parece uma coisa mais apta pra nos deixar gostosamente a farrear loucos. E tem um monte de gente pra ajudar a teorizar e fazer a farra! Se esse monte de gente estiver se sentindo gostoso, bem gostoso mesmo, só vão ajudar!
%: Keep foreigning e beijos!
&: O Brasil, pra mim, ainda é a mais foreign das culturas que eu conheço como cultura, no Brasil.
%: eu só fui prá lá em 1998 e por pouco tempo.
&: Melhor! Rem, cuide-se. Muitos beijos pra você e pro pessoal lá e muitos mais pra mim!
%: vou subir as tamancas!
&: arrasa! Beijotas.
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o pessoal do editorial quer os layouts pra revisão, logo.
e os vendidos do dept. de RP podem arder no inferno: a Board of Directors recusou a proposta tonta de vender a entrevista em pedaços.
beijos,
Dept. de comunicação interna.